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Agro muda mapa da produtividade no Brasil e fortalece economias do interior

Estudo aponta avanço de 80,1% da produtividade do trabalho na agropecuária entre 2002 e 2019; transformação ajuda a explicar crescimento de novas fronteiras agrícolas e reforça papel de pesquisa e tecnologia, área em que Piracicaba ocupa posição estratégica
Por: Redação
31 de agosto de 2026 - 7:30 AM

A expansão do agronegócio está alterando a geografia da produtividade brasileira. Municípios do interior, especialmente em novas fronteiras agrícolas, passaram a registrar ganhos de eficiência superiores aos observados em regiões historicamente industrializadas do país.

Um novo estudo que estima a produtividade do trabalho em mais de 5.500 municípios brasileiros mostra que, entre 2002 e 2019, a produtividade nacional avançou 18,7%. Na agropecuária, porém, o crescimento chegou a 80,1%, enquanto serviços avançaram 10,3% e indústria, 5,4%.

Os resultados fazem parte do pré print “Missing the Productivity: Estimating Labor Productivity in Brazilian Municipalities (2002–2019)”, dos pesquisadores Alan Bueno e Diogo Ferraz. O trabalho, divulgado em julho de 2026, construiu uma base anual para analisar produtividade em agropecuária, indústria e serviços no nível municipal. Por se tratar de um pré print, os resultados ainda devem ser considerados preliminares.

Fronteira agrícola concentra alguns dos maiores avanços
O levantamento aponta ganhos expressivos principalmente em áreas de expansão da fronteira agropecuária, enquanto estados tradicionalmente industrializados tiveram evolução mais lenta.

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Entre os destaques apresentados estão Piauí, com crescimento de aproximadamente 103% na produtividade no período, Maranhão, com 86%, e Tocantins, com 69,7%.

O movimento ajuda a mostrar que o avanço econômico do interior não está relacionado apenas ao aumento da área plantada ou do volume produzido. Tecnologia, mecanização, melhoria genética, gestão, infraestrutura e qualificação também passaram a determinar quanto valor pode ser produzido pelo trabalho empregado no campo.

O resultado encontra respaldo em uma série histórica mais ampla do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, da FGV IBRE. Entre 1996 e 2024, a produtividade agregada do trabalho no Brasil cresceu, em média, apenas 0,8% ao ano. A agropecuária respondeu por cerca de 60% desse avanço, apesar de representar uma parcela relativamente pequena das horas trabalhadas e do valor adicionado nacional.

Isso significa que parte relevante do crescimento da produtividade brasileira nas últimas décadas ocorreu justamente no campo.

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Menos trabalhadores, mais tecnologia e produção
Uma das transformações por trás desse processo está na mudança do perfil da mão de obra rural.

A produtividade pode crescer quando uma mesma quantidade de trabalhadores consegue produzir mais, algo que pode ocorrer com mecanização, automação, novas técnicas, melhor gestão e utilização mais eficiente dos recursos.

Dados apresentados pela CNA mostram a dimensão dessa transformação. Entre 1995 e 2025, a produtividade por hora trabalhada na agropecuária brasileira aumentou 515%. No conjunto da economia, o crescimento foi de 28% no mesmo intervalo.

O movimento não significa, entretanto, que todo município agrícola tenha se tornado mais rico ou que os ganhos tenham sido distribuídos igualmente entre os trabalhadores. Produtividade mede a relação entre produção e trabalho empregado e não deve ser confundida diretamente com salário, renda familiar ou qualidade de vida.

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Falta de mão de obra vira novo problema do campo
A modernização trouxe também um desafio que parece contraditório: mesmo com maior mecanização, produtores encontram dificuldade para contratar.

Pesquisa da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, em parceria com o Cepea, da Esalq/USP, mostrou que 94,8% dos produtores consultados relataram algum grau de dificuldade na contratação de trabalhadores.

Para 44,5%, a disponibilidade de mão de obra é atualmente o principal desafio da atividade, superando custos, clima e preços.

O levantamento aponta ainda que 84,3% dos entrevistados trabalham com quadro inferior ao considerado necessário. Entre os produtores, 88,3% afirmaram enfrentar alguma consequência produtiva relacionada ao problema.

Os efeitos incluem atrasos nas operações, citados por 48,7%; adiamento ou desistência de planos de expansão, por 48%; aumento dos custos com trabalho, por 43,9%; antecipação de investimentos em mecanização e automação, por 42,6%; e redução da produção, mencionada por 42%.

A escassez também muda o perfil das vagas. Máquinas mais sofisticadas, agricultura de precisão, sistemas digitais e automação aumentam a demanda por trabalhadores capazes de operar tecnologias que antes tinham presença limitada no cotidiano das propriedades.

Agro movimenta economia muito além das fazendas
O impacto econômico também ultrapassa os limites das propriedades rurais.

O crescimento da produção movimenta transporte, armazenagem, comércio, máquinas, fertilizantes, serviços financeiros, tecnologia, construção e processamento industrial. É justamente essa integração que faz com que a expansão agrícola possa modificar a economia de municípios inteiros.

A indústria brasileira de alimentos e bebidas, por exemplo, adquiriu em 2025 cerca de 62% de toda a produção agropecuária nacional, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos, a ABIA.

O setor encerrou aquele ano com faturamento de R$ 1,388 trilhão, produção física de 288 milhões de toneladas e mais de 2,1 milhões de empregos diretos.

Isso ajuda a explicar por que o avanço da produtividade agrícola pode produzir efeitos sobre atividades que aparentemente estão distantes da lavoura.

Brasil ainda enfrenta desafio de produtividade fora do campo
O desempenho do agro contrasta com um problema estrutural da economia brasileira.

A FGV IBRE aponta que os serviços concentram a maior parte das horas trabalhadas e do valor adicionado do país. Por isso, mesmo avanços muito fortes na agropecuária não são suficientes, sozinhos, para provocar grande crescimento da produtividade nacional.

Segundo análise publicada pelo instituto em 2026, períodos em que a produtividade brasileira conseguiu crescer acima de 1% ao ano coincidiram com momentos de aceleração também no setor de serviços.

Em outras palavras, o avanço tecnológico do campo melhora os indicadores nacionais, mas um salto mais amplo da produtividade depende também de indústria e serviços.

Piracicaba está no centro da pesquisa sobre produtividade do agro
O tema possui uma ligação direta com Piracicaba.

A cidade abriga a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, a Esalq/USP, um dos principais centros brasileiros de pesquisa e formação ligados à agricultura. Dentro da instituição funciona o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, o Cepea, responsável por estudos sobre PIB do agronegócio, mercado de trabalho, custos, cadeias produtivas, preços e comércio exterior.

O próprio levantamento da CNA sobre escassez de trabalhadores foi desenvolvido em parceria com o Cepea.

A instituição mantém aproximadamente 140 pesquisadores, professores, profissionais e estudantes e acompanha diferentes cadeias do agronegócio, como açúcar e etanol, soja, milho, café, pecuária, frutas e hortaliças.

Essa estrutura coloca Piracicaba em posição particular dentro da transformação observada no interior brasileiro: além de estar inserida em uma região fortemente ligada ao agronegócio e à cadeia sucroenergética, a cidade participa da produção do conhecimento utilizado para medir e compreender as mudanças econômicas do campo.

Agro também começou 2026 em cenário de ajuste
Os ganhos estruturais de produtividade não significam crescimento contínuo do setor.

O PIB do agronegócio brasileiro, calculado pelo Cepea em parceria com a CNA, havia crescido mais de 12% em 2025, mas apresentou retração de 2,01% no primeiro trimestre de 2026.

A diferença entre os indicadores é importante. O PIB mostra o desempenho econômico em determinado período, enquanto produtividade procura medir quanto é produzido em relação aos recursos empregados, como trabalho.

Assim, um setor pode apresentar ganhos estruturais de produtividade ao longo de décadas e, ao mesmo tempo, atravessar períodos de queda da atividade econômica.

O quadro que emerge das pesquisas é de uma mudança de longo prazo. O campo brasileiro incorporou tecnologia, elevou a produção e passou a desempenhar papel cada vez mais relevante nos ganhos de eficiência da economia.

O desafio agora é fazer com que essa transformação avance para outros setores, seja acompanhada por qualificação profissional e gere maior agregação de valor dentro do próprio país.