Comprar um carro zero quilômetro exige um esforço financeiro cada vez maior no Brasil. O ticket médio dos veículos novos vendidos no país está em aproximadamente R$ 169 mil, valor equivalente a 105 salários mínimos, ou quase nove anos de remuneração mínima integral, segundo levantamento da Bright Consulting realizado a pedido do Jornal do Carro, do Estadão.
A comparação considera o salário mínimo de R$ 1.621 e serve para dimensionar o peso do automóvel sobre a renda. Isso não significa que um trabalhador conseguiria comprar o veículo após nove anos: o cálculo pressupõe, apenas para efeito comparativo, que todo o salário fosse destinado à aquisição, sem considerar despesas com moradia, alimentação, transporte, impostos ou outras necessidades.
O valor de R$ 169 mil também não representa o preço do carro zero mais barato disponível no Brasil. Trata se da média dos veículos novos comercializados considerada pelo levantamento.
Carro mais barato já exige cerca de quatro anos de salário mínimo
Mesmo quando a análise considera os modelos de entrada, a distância em relação à renda permanece significativa.
O levantamento cita um veículo de entrada vendido por R$ 77.290. Nessa faixa, seriam necessários aproximadamente 48 salários mínimos, o equivalente a quatro anos de remuneração integral.
Quando a comparação é feita com a renda média mensal utilizada pelo estudo, de aproximadamente R$ 3.546,50, esse automóvel representa quase 22 meses de rendimento.
Já o carro de R$ 169 mil, correspondente ao ticket médio do mercado, equivale a aproximadamente 48 meses da renda média brasileira, ou quatro anos.
Novamente, os números funcionam como uma medida de acessibilidade e não como uma simulação real de compra, já que nenhuma família consegue comprometer toda a renda durante esse período exclusivamente com um veículo.
Carro popular deveria custar perto de R$ 60 mil, aponta estudo
A Bright Consulting estima que um automóvel considerado mais compatível com o poder de compra médio do brasileiro deveria custar cerca de R$ 60 mil.
Mesmo nesse valor, seriam necessários aproximadamente 17 meses da renda média considerada pelo levantamento para pagar o veículo, sem incluir outros gastos do consumidor. Atualmente, porém, nenhum carro zero quilômetro está disponível nessa faixa de preço, segundo o estudo.
O cenário ajuda a explicar como o conceito de carro popular mudou no mercado brasileiro. Modelos que historicamente funcionavam como porta de entrada para o veículo novo passaram a representar um comprometimento maior da renda.
Brasil exige esforço maior que vários outros países
O levantamento também comparou a relação entre preço dos automóveis e renda em diferentes mercados.
Pela renda média, o preço médio de um veículo corresponde a 48 meses no Brasil. Na China, são 45 meses; na Argentina, 44; no Paraguai, 34; e na Índia, 63.
A diferença é ainda maior quando aparecem economias desenvolvidas na comparação. No Japão, o preço médio de um automóvel corresponde a aproximadamente nove meses da renda média, enquanto na Alemanha são cerca de dez meses.
Considerando apenas o salário mínimo, o veículo médio representa 105 meses de remuneração no Brasil, ante 69 na China, 92 na Índia, 40 nos Estados Unidos, 38 no Paraguai, 19 na Alemanha e 18 no Japão. A Argentina, com 136 meses, apresenta resultado superior ao brasileiro nesse critério.
Distância aumentou em relação a 2013
O estudo também recupera preços do mercado brasileiro de 2013 para mostrar a mudança na capacidade de compra.
Naquele ano, um Fiat Uno Mille zero quilômetro custava R$ 23.900, valor equivalente a pouco mais de 35 salários mínimos da época. Hoje, o veículo de entrada considerado no levantamento supera R$ 77 mil e exige aproximadamente 48 salários mínimos.
Segundo a Bright Consulting, a perda de poder de compra se combina a fatores como custos de produção, tributação, novas exigências de segurança e ambientais e maior incorporação de tecnologia nos veículos.
Os números mostram que o desafio não está apenas no preço nominal dos automóveis, mas na distância entre esse preço e a renda disponível. Com o veículo novo mais acessível acima da faixa considerada ideal pelo estudo, comprar um zero quilômetro tornou se um compromisso financeiro cada vez mais distante para uma parcela dos brasileiros.





