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Uso de canetas para emagrecimento sem registro expõe usuários a riscos severos à saúde

Casos recentes revelam que produtos vendidos ilegalmente podem conter impurezas, substâncias proibidas e dosagens perigosas
Por Redação
21 de janeiro de 2026 - 3:29 PM

O uso de canetas emagrecedoras comercializadas de forma irregular tem acendido um alerta entre médicos e autoridades de saúde. Em Belo Horizonte, uma mulher de 42 anos permanece internada em estado grave desde dezembro após apresentar complicações associadas ao uso de um desses produtos adquiridos ilegalmente, sem prescrição médica.

Segundo familiares, a auxiliar administrativa Kellen Oliveira Bretas Antunes utilizou uma caneta emagrecedora trazida do Paraguai, sem acompanhamento profissional. O quadro inicial foi de dores abdominais intensas, mas evoluiu rapidamente para alterações neurológicas. A suspeita médica é de que ela tenha desenvolvido uma síndrome capaz de comprometer a musculatura, os movimentos, a fala e o funcionamento de órgãos vitais.

Especialistas explicam que esse tipo de agravamento não é incomum quando o medicamento não segue padrões farmacêuticos adequados. Análises já realizadas em canetas vendidas fora da rede regular identificaram substâncias diferentes das anunciadas, além de impurezas e falhas graves na produção.

A endocrinologista Maria Fernanda Barca, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), afirma que exames laboratoriais em produtos clandestinos já revelaram baixa pureza, ausência de esterilidade, insumos de origem desconhecida e até a presença de sibutramina, substância proibida para uso injetável. Segundo ela, muitos desses riscos têm origem na produção, realizada sem controle sanitário, em ambientes inadequados e com frascos superconcentrados usados por mais de um paciente.

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O endocrinologista Clayton Macedo, do Hospital Israelita Albert Einstein, reforça a gravidade. Em testes independentes, frascos vendidos como tirzepatida apresentaram pureza entre 7% e 14%, quando o medicamento original exige cerca de 99%.

“Não se trata do mesmo composto. A substância não se comporta como o medicamento verdadeiro e não oferece efeito terapêutico confiável”, explica.

Entre a manipulação permitida e a ilegalidade

A legislação brasileira permite a manipulação de tirzepatida, desde que sejam cumpridas exigências rigorosas da Anvisa, como pureza comprovada do insumo, rastreabilidade total, ambiente estéril, produção individualizada e prescrição médica específica. Quando essas regras não são seguidas, o produto passa a ser considerado irregular ou até falsificado.

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Especialistas apontam que o mercado clandestino atua justamente fora desses limites, sem controle de qualidade, sem esterilidade e com dosagens imprecisas. Para o consumidor, essas diferenças não são visíveis, mas para o organismo podem ser decisivas.

Reações graves e risco de morte

Além do caso em Belo Horizonte, há relatos de reações alérgicas severas, como o da aposentada Ivete de Freitas, de 69 anos, que desenvolveu manchas pelo corpo semelhantes a sarampo após usar um produto adquirido fora da farmácia. Médicos alertam que, além de reações cutâneas, podem ocorrer surtos psicóticos, infecções, alterações cardiovasculares, hipoglicemia e, em situações extremas, risco de morte.

Outro fator crítico é a falta de cadeia fria. Sem controle de temperatura, a molécula pode se degradar, fazendo com que o corpo reaja não ao medicamento, mas a subprodutos instáveis e potencialmente tóxicos.

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Há ainda o risco silencioso da falsa sensação de tratamento. Quem utiliza um produto clandestino acredita estar cuidando da saúde, quando, na prática, pode estar adiando o tratamento adequado da obesidade ou do diabetes, aumentando riscos cardiovasculares e metabólicos.

Posição da fabricante

A farmacêutica Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, informou que não produz, não autoriza e não comercializa o medicamento em farmácias de manipulação nem em frascos fracionados ou a granel. Segundo a empresa, qualquer solução líquida vendida como tirzepatida fora dos canais oficiais deve ser considerada falsificada.

A fabricante afirma ainda que já identificou ampolas clandestinas contendo substâncias desconhecidas, ausência total do princípio ativo e misturas com outros compostos não declarados. O medicamento legítimo, reforça a empresa, é vendido exclusivamente em canetas descartáveis, seladas, rastreáveis e mediante prescrição médica.