A polilaminina ganhou destaque nas redes sociais nos últimos dias após a divulgação de vídeos de pacientes com lesão medular voltando a se movimentar. O caso mais comentado é o de Bruno Drummond, que sofreu um acidente em 2018, recebeu a substância e hoje realiza atividades como musculação.
Apesar da repercussão, pesquisadores e médicos alertam: a polilaminina ainda é uma promessa de tratamento, não um medicamento aprovado.
Desenvolvida a partir da laminina, proteína produzida naturalmente pelo corpo humano e essencial no desenvolvimento embrionário, a polilaminina é uma versão modificada em laboratório. A proposta é que, aplicada no local da lesão medular aguda — até 72 horas após o trauma —, ela funcione como uma espécie de suporte para estimular a regeneração de conexões nervosas.
O que já se sabe
A pesquisadora Tatiana Sampaio, responsável pelo estudo, obteve resultados positivos em testes com animais e, posteriormente, em um grupo preliminar de oito pacientes. Parte deles apresentou melhora motora, mas nem todos tiveram recuperação significativa.
O estudo divulgado ainda não passou por revisão por pares, etapa considerada fundamental para validar achados científicos. Além disso, o número reduzido de participantes impede conclusões definitivas sobre eficácia.
Especialistas lembram que até 30% dos pacientes com lesão medular aguda podem recuperar algum grau de movimento mesmo sem intervenção experimental, dependendo do tipo e da gravidade da lesão.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou o início da fase 1 dos ensaios clínicos regulatórios, voltada à avaliação de segurança. O estudo ainda aguarda trâmites éticos para começar.
Para que a substância se torne um medicamento disponível no Sistema Único de Saúde, será necessário cumprir todas as fases clínicas exigidas, com testes em grupos maiores, análise de efeitos adversos e posterior registro sanitário.
Uso por decisão judicial
Mesmo sem aprovação definitiva, pacientes têm recorrido à Justiça para obter acesso à polilaminina por meio do chamado uso compassivo. Segundo o laboratório Cristália, cerca de 40 ações judiciais foram movidas e 19 aplicações realizadas até o momento.
Esses casos, porém, não fazem parte de ensaio clínico estruturado. De acordo com especialistas, isso limita o acompanhamento sistemático e a coleta de dados científicos.
Cinco mortes foram registradas entre pacientes que receberam a substância, mas o laboratório afirma que não há relação com o produto, e sim com o estado clínico grave dos pacientes.
Debate científico
Neurocirurgiões e especialistas em pesquisa clínica ouvidos pela imprensa destacam que os dados atuais ainda não justificam uso amplo. A chance de um tratamento experimental se confirmar eficaz após estudos ampliados é, historicamente, inferior a 30%.
Também não há evidências científicas de que a polilaminina funcione em lesões medulares crônicas, quando a paralisia já está instalada há mais tempo.
O próprio laboratório afirma que os próximos estudos são necessários principalmente para fins regulatórios, mas a comunidade científica reforça que apenas ensaios clínicos robustos poderão confirmar segurança e eficácia.
A polilaminina representa um avanço promissor na pesquisa brasileira, mas ainda depende do tempo e do rigor da ciência para comprovar se poderá, de fato, transformar o tratamento de lesões medulares.





