O esporte sempre foi mais do que passatempo por aqui. É o que move as pessoas, enche estádio, vira conversa e, de um jeito ou de outro, explica quem a gente é.
O futebol sempre esteve na frente, claro. Mas, escondida entre as manhãs de domingo, uma outra paixão também cresceu: a Fórmula 1.
Um esporte que nasceu longe, nas pistas europeias, e acabou encontrando no Brasil um público que vibra do mesmo jeito.
Mas o que fez o país começar a assistir carros correndo em círculos?
O Brasil não inventou a Fórmula 1, mas ajudou a ‘’transformar’’ ela.
Nos anos 1970, enquanto o país ainda vivia o eco do tri da Seleção, um paulista de 25 anos começava a correr em circuitos europeus com nomes impronunciáveis.
Em 1972, Emerson Fittipaldi se tornou o primeiro campeão mundial brasileiro e o mais jovem da história da categoria marcando o início de uma relação que mudaria o lugar do Brasil dentro do automobilismo.
E como bons torcedores, independentemente do esporte, quando a Fórmula 1 chegou o país em 73, já éramos muitos nas arquibancadas, de olho nos brasileiros.
A partir daí, a categoria passou a ser um ritual, e o GP de Interlagos um evento anual.
Depois de Fittipaldi, Nelson Piquet apareceu no fim da década de 70 e começou a colocar o Brasil entre os favoritos.
Foi tricampeão, em 1981, 83 e 87, num período em que o esporte começava a ganhar mais atenção da imprensa e das marcas.

Pouco depois, quando veio Ayrton Senna, as transmissões já estavam mais estruturadas e a audiência crescia.
Senna venceu três campeonatos 1988, 1990 e 1991 e levou o Brasil para o centro do noticiário esportivo internacional.
Mas o impacto dele foi além das pistas. O jeito de correr, as entrevistas, o capacete amarelo e o hino tocando no pódio criaram uma imagem que ultrapassava o esporte.
Ele virou uma figura histórica. Estava em campanhas publicitárias, jornais e programas de TV e, pela primeira vez, um piloto de Fórmula 1 era reconhecido até por quem nunca tinha visto uma corrida.
O domingo virou sagrado
Na época, com as transmissões acontecendo na Globo na voz de Galvão Bueno, era difícil não pensar no domingo sem pensar nas corridas.
O ritual do domingo de manhã era assistir Fórmula 1, as vezes mesmo sem entender de carro, mas sim porque tinha um brasileiro disputando.
Transmissões históricas ficaram na memória de milhões de brasileiros.
A vitória de Senna em Interlagos, em 1991, por exemplo, é uma delas:

Anos depois, outro momento marcou o autódromo dessa vez com Felipe Massa. Em 2008, o brasileiro chegou a ser campeão mundial por alguns segundos.
Venceu em Interlagos, mas perdeu o título quando Lewis Hamilton ultrapassou Timo Glock na última curva.
O espetáculo e o negócio
Mesmo depois do fim da geração de pilotos brasileiros com Massa se despedindo da F1 em 2017, o interesse do público nunca desapareceu.
Interlagos continuou lotando, e o GP se manteve como um dos eventos esportivos mais importantes do país. Mas, nos bastidores, o problema era outro…
Em 2020, a Globo decidiu encerrar a transmissão da Fórmula 1 no Brasil. O contrato era caro e, na época, a emissora entendia que o retorno de audiência já não compensava o investimento.
Foi o fim de um ciclo de quase quatro décadas em que aquele domingo de manhã tinha dono.

Ao mesmo tempo, a Fórmula 1 também passava por uma virada global. Em 2016, a categoria foi comprada pela Liberty Media, um grupo americano de entretenimento que redesenhou o produto:
– Foi responsável, junto da Netflix, pela criação da série Drive to Survive, que contribuiu com novos fãs nos EUA, um país que antes pouco se falava do esporte.
– Modernizou o formato de transmissão e marketing, tornando os pilotos personagens e as corridas, narrativas;
– Atraiu um público mais jovem e diverso especialmente mulheres e expandiu a base de fãs em mercados fora da Europa;
– Fez a receita da categoria praticamente dobrar entre 2017 e 2024, alcançando mais de US$ 1,1 bilhão em direitos de mídia e impacto recorde de audiência global.
A F1 deixou de ser um clube fechado e passou a operar como uma marca mundial com patrocínios, experiências e contratos bilionários.
E o modelo de negócios ajuda a explicar tanto sucesso. A categoria é o que o mercado chama de asset light: não precisa ter gastos fixos altos nem investir pesado em infraestrutura.
- As cidades pagam para sediar as corridas e ainda bancam melhorias nos autódromos;
- As emissoras compram os direitos de transmissão e produzem do próprio local;
- As equipes cuidam da própria divulgação e estrutura;
- E os patrocinadores investem dentro e fora das pistas.
No Brasil, o espaço deixado pela Globo foi rapidamente ocupado pela Band, que assumiu as transmissões em 2021.
A nova fase coincidiu com o fortalecimento do GP de São Paulo, que se firmou como um dos mais rentáveis do calendário.

Esse ano, o evento vai movimentar mais de R$ 2 bilhões na economia da cidade e vai atrair cerca de 300 mil pessoas no fim de semana um recorde histórico.
Curiosamente, em 2025, cinco anos depois de deixar a categoria, a Globo voltou ao desejo de transmitir a Fórmula 1, reassumindo os direitos a partir do ano que vem.
O GP de São Paulo de 2025, decisivo em meio a um acirrado campeonato de pilotos, acontece nesse domingo, à partir das 14h. Lando Norris, atual líder, larga na frente.
ENTREVISTA
Depois de Ayrton Senna, Felipe Massa foi um dos responsáveis por manter o Brasil no mapa da Fórmula 1. Vice-campeão mundial em 2008, venceu 11 GPs e passou 15 temporadas na categoria.
Hoje, corre na Stock Car Pro Series, e segue acompanhando de perto a nova geração incluindo Gabriel Bortoleto, que estreia no grid de Interlagos neste fim de semana.
Às vésperas do GP de São Paulo, Massa conversou com a nossa equipe sobre bastidores, conselhos e o futuro da F1.

O que mais surpreenderia o público na sua rotina da época em que estava na F1 se já existisse um documentário como o Drive to Survive mostrando os seus bastidores?
“Esse tipo de série é muito legal pra mostrar o que as pessoas normalmente não veem o trabalho fora da pista, o que acontece nos bastidores, o que a gente sente num fim de semana de corrida, com família, amigos, equipe… É o que mais aproxima o público do que realmente é viver a Fórmula 1.”
Como alguém que já correu muito em Interlagos, qual conselho você daria para o Gabriel Bortoleto se tivesse ali no box junto com ele minutos antes da corrida de domingo começar?
“Usar toda a energia das pessoas. Isso faz muita diferença. Antes de entrar no carro, olhar pro público, sentir a arquibancada. Eu fazia muito isso tentava trazer essa energia pra dentro de mim. Correr em casa é uma coisa que não dá pra comparar com nenhuma outra.”
Se tivesse a chance de comandar uma equipe de F1 hoje, quem estariam no seu grid?
“Verstappen e Piastri. Acho que seria uma boa combinação. São dois estilos de piloto muito diferentes, mas que se completariam bem dentro de uma equipe.”
E o seu grid dos sonhos, com pilotos de todas as eras?
“Senna, Gilles Villeneuve, Niki Lauda, Jackie Stewart e Schumacher. Correr com esses nomes seria algo especial.”
Em Piracicaba, essa história encontra um capítulo próprio. O ECPA, fundado em 1984, se tornou um dos principais centros de kart e arrancada do país, recebendo etapas oficiais da CBA e revelando pilotos nas categorias de base. Ao longo dos anos, nomes consagrados da Fórmula 1 já passaram pelo autódromo em eventos e treinos, reforçando o elo simbólico da cidade com o automobilismo. Além das pistas, Piracicaba desenvolveu uma cultura técnica robusta, com oficinas e preparadores especializados que movimentam a economia local e mantêm viva a paixão pelo esporte.





