O Carnaval está chegando. Mas você conhece a história de uma das maiores festas do Brasil? Muito além da folia, dos desfiles e dos blocos de rua, o Carnaval carrega séculos de transformações culturais, religiosas e sociais.
Para compreender essa trajetória, a autora de História, Filosofia e Sociologia do Sistema de Ensino pH, Ana Paula Aguiar, explica como a celebração surgiu, se transformou ao longo do tempo e se consolidou como um dos principais símbolos da identidade cultural brasileira.
Origem religiosa e raízes antigas
Celebrado sempre nos dias que antecedem a Quarta Feira de Cinzas, o Carnaval está ligado ao calendário cristão e marca o período anterior aos 40 dias da Quaresma.
“O Carnaval surgiu como um rito de passagem que antecede a Quaresma cristã. A festa tornou se uma espécie de ‘último suspiro’ da carne e dos prazeres mundanos antes do recolhimento espiritual”, explica Ana Paula.
A própria origem do termo pode reforçar esse sentido simbólico. A palavra Carnaval possivelmente deriva do latim carnem levare, que significa “retirar a carne”, em referência ao período de jejum e penitência que se inicia após a festa.
Apesar da forte associação com o cristianismo, a celebração é ainda mais antiga. Antes de integrar o calendário religioso, práticas semelhantes já estavam presentes em festividades da Antiguidade, como as Saturnálias romanas e os rituais dedicados a Dionísio, na Grécia, marcados por comida, bebida e música.
“Ao mesmo tempo em que tudo parecia permitido, a festa também reforçava limites. Ela sempre terminava com o início da Quaresma, como quem diz: agora é hora de se recolher”, observa a historiadora, ao explicar que a Igreja optou por reorganizar, e não eliminar, essas tradições populares.
O Carnaval no Brasil: do Entrudo à organização cultural
No Brasil, o Carnaval chegou durante o período colonial, trazido pelos portugueses por meio do Entrudo, prática popular que consistia em sujar e molhar as pessoas nas ruas.
A aquarela de Augustus Earle, de 1822, retrata foliões jogando água no Rio de Janeiro, imagem que ajuda a visualizar como eram as primeiras manifestações carnavalescas no país.
“Embora fosse tolerado como uma válvula de escape em uma sociedade marcada por rigidez e desigualdade, o Entrudo também era alvo de repressão pelas autoridades, que o consideravam uma festa grosseira e tentavam proibi lo a partir do século 19”, contextualiza Ana Paula.
Com o passar do tempo, a celebração foi se transformando e ganhando características próprias. Surgiram os bailes de máscara, os blocos de rua e, posteriormente, as escolas de samba, que estruturaram o Carnaval como manifestação cultural organizada.
Samba, identidade e expressão social
A partir do século 20, o samba assumiu papel central na festa. Os desfiles passaram a dialogar com temas sociais, históricos e políticos, sem perder o caráter popular.
O Carnaval tornou se espaço de expressão artística e também de afirmação cultural, refletindo tensões, memórias e transformações da sociedade brasileira.
Diversidade e patrimônio cultural
Hoje, o Carnaval é celebrado de diferentes formas pelo país. Dos desfiles das escolas de samba no Sudeste aos trios elétricos do Nordeste, passando por manifestações como o frevo e o maracatu, a festa revela a diversidade cultural brasileira.
Mais do que um momento de folia, o Carnaval se afirma como patrimônio cultural, preservando saberes populares e formas de resistência que atravessam gerações.
Conhecer sua história é compreender que a festa vai muito além da avenida: ela é resultado de séculos de encontros culturais, adaptações e reinvenções.





