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Mulheres entre 50 e 59 anos concentram maior número de afastamentos de professores por saúde na região de Piracicaba

Levantamento da Secretaria Estadual da Educação aponta 396 licenças médicas em 2025 e revela relatos de medo, cobrança excessiva e falta de empatia no ambiente escolar.
Por: Redação
9 de fevereiro de 2026 - 9:51 AM

As cidades da região de Piracicaba registraram, ao longo de 2025, 396 afastamentos de professores da rede estadual por problemas de saúde, segundo dados da Secretaria de Estado da Educação obtidos via Lei de Acesso à Informação. O levantamento mostra que mulheres de 50 a 59 anos, atuantes principalmente na educação básica II, representam a maior parte dos profissionais afastados.

Os números acendem um alerta para as condições de trabalho e para a saúde física e mental dos docentes que atuam nas escolas públicas da região.

Perfil dos afastamentos
Do total de licenças concedidas, 268 foram de professoras e 128 de professores. A maioria dos afastados lecionava do 6º ao 9º ano do ensino fundamental, somando 332 profissionais. Outros 45 atuavam no ensino fundamental e médio, e 9 na educação básica I, do 1º ao 5º ano.

Em relação ao vínculo com o Estado, os dados indicam que:

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259 eram professores efetivos (categoria A)
115 eram estáveis (categoria F)
22 eram temporários (categoria O)
A maior parte das licenças foi temporária, com 374 afastamentos por período determinado, enquanto 22 ocorreram por tempo indeterminado. O levantamento não detalha os diagnósticos que motivaram as licenças.

Piracicaba lidera número de casos
Entre os municípios da região, Piracicaba concentra o maior número de afastamentos, com 139 registros, seguida por Limeira, com 101, e Santa Bárbara d’Oeste, com 61. Outras cidades aparecem com números menores, como São Pedro (11), Rio das Pedras (10) e Capivari (10). Águas de São Pedro não registrou afastamentos no período analisado.

Relatos apontam ambiente de pressão
Além dos dados oficiais, a reportagem ouviu professoras que vivenciaram o afastamento. Uma docente da rede estadual há duas décadas, afastada por transtorno de ansiedade e depressão, relatou um ambiente marcado por conflitos e avaliações constantes.

Segundo ela, há uma cultura de julgamento que ultrapassa o desempenho pedagógico. “Se você não se adequar ao perfil que a gestão deseja, você fica de fora. Não é sobre competência, é sobre afinidade”, afirmou, sob condição de anonimato.

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A professora também relatou falta de empatia por parte da gestão escolar diante de problemas de saúde mental. Em um dos episódios, ouviu a orientação para não chorar. “Muitas vezes eu me escondia para chorar”, contou.

Outra docente, que enfrentou problemas respiratórios ao longo de 2025, disse que o medo de avaliações negativas a levou a trabalhar doente. “Eu tive crises de asma recorrentes, mas não podia pegar licenças seguidas porque isso acabava me prejudicando”, relatou.

Especialista cobra políticas públicas
Para o psicólogo e especialista em educação Ronaldo Alexandrino, da Universidade Estadual de Campinas, os números revelam a necessidade de uma resposta mais estruturada do poder público.

Segundo ele, o adoecimento docente não pode ser tratado apenas como um problema individual. “Falar de adoecimento é corresponsabilizar as políticas públicas e o Estado sobre a forma como organiza a vida funcional desses profissionais”, afirmou.

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Alexandrino defende que gestores públicos ouçam os professores para construir soluções efetivas. “Se os dados mostram que o adoecimento é um fato, é preciso encarar a situação, dialogar e perguntar ao profissional o que gera esse sofrimento”, completou.

O que diz a Secretaria da Educação
Em nota, a Secretaria de Estado da Educação informou que acompanha os afastamentos para planejar ações de prevenção e cuidado, com atenção especial à saúde mental dos professores. A pasta destacou o fortalecimento de políticas de acolhimento e escuta e citou a criação, em 2024, de um serviço de teleatendimento.

De acordo com o órgão, até janeiro de 2025 foram registrados 875 mil atendimentos em psicologia e 52 mil em psiquiatria. A secretaria também atribui parte dos afastamentos às mudanças enfrentadas pela categoria após a pandemia, ao avanço das tecnologias e às novas demandas sociais e pedagógicas.

O cenário reforça a urgência de políticas públicas que considerem o professor como trabalhador e ser humano, especialmente em uma região onde o adoecimento docente já se reflete em números expressivos.

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