Asilos clandestinos que mantinham idosos em situação de maus-tratos em Ribeirão Preto (SP) cobravam R$ 2,5 mil por mês das famílias pelos serviços. A informação foi confirmada por parentes e funcionárias das instituições à EPTV, afiliada da TV Globo. Segundo as denúncias, as promessas de alimentação balanceada e atendimento com equipe multidisciplinar nunca foram cumpridas.
A dona das casas, Eva Maria de Lima, teve a prisão em flagrante convertida em preventiva nesta segunda-feira (3). O Ministério Público apontou que ela mantinha três casas de repouso em funcionamento mesmo após uma interdição judicial decretada em abril deste ano por irregularidades sanitárias e estruturais. A defesa nega as acusações.
De acordo com o Ministério Público, as instituições funcionavam em imóveis localizados nas ruas Lafaiete, no bairro Vila Seixas, Marechal Deodoro, no Alto da Boa Vista, e em uma casa no bairro Parque Ribeirão, onde sete idosos foram encontrados em estado grave e precisaram ser internados. Ao todo, 36 idosos foram resgatados.
Parentes relataram que o valor pago incluía alimentação adequada, fisioterapia, acompanhamento nutricional e terapia ocupacional. No entanto, segundo os depoimentos, os idosos não recebiam as refeições prometidas, não tinham acesso a frutas e consumiam sucos artificiais, mesmo em casos de restrições médicas, como diabetes.
Uma ex-funcionária das casas confirmou que os idosos eram amarrados com lençóis após o café da manhã e permaneciam assim por horas, inclusive durante a noite. Segundo ela, a ordem vinha diretamente de Eva.
“Ela mandava amarrar porque não tinha cuidador suficiente. Às vezes um único funcionário cuidava de vários pacientes. Ela dizia: ‘tomou banho, deu café? Amarra’.”
A funcionária também afirmou que o local era monitorado por câmeras e que os trabalhadores eram pressionados a seguir as ordens.
“Se a gente não amarrasse, ela chamava atenção. Dizia que, se algum paciente caísse, a responsabilidade era nossa.”
Além da violência física, os depoimentos relatam falta de higiene, alimentação precária e limitação de fraldas. Os idosos recebiam apenas três fraldas por dia e ficavam sujos durante horas.
“Era um cheiro muito forte de urina. Não tinha material de limpeza, a gente usava só água”, contou uma das cuidadoras.

Segundo o promotor de Justiça da Pessoa Idosa, Carlos Cezar Barbosa, a situação nas casas era de “completo abandono” e representava risco à vida dos moradores. Ele afirmou que as famílias também serão investigadas, já que alguns parentes tinham conhecimento das condições em que os idosos viviam. “Essas casas deveriam estar desocupadas desde junho, mas ela insistiu em mantê-las abertas, desrespeitando decisões judiciais”, disse.
O promotor confirmou que dois idosos foram levados a unidades de saúde com quadro de hipoglicemia, resultado de falta de alimentação adequada. Outros foram encaminhados a casas de acolhimento regularizadas e alguns retornaram ao convívio familiar.
Em nota, a defesa de Eva Maria de Lima declarou que as instituições sempre ofereceram “zelo, respeito e dedicação” aos idosos, muitos deles em situação de vulnerabilidade social e sem vínculo familiar.
A Prefeitura de Ribeirão Preto informou que assumiu emergencialmente a administração das casas localizadas no Centro e no Alto da Boa Vista, após o abandono dos funcionários. Equipes de saúde e assistência social foram enviadas para garantir o atendimento imediato aos idosos.
“O cenário é de descaso e insalubridade. Nossa prioridade agora é garantir banho, alimentação e cuidados médicos aos pacientes”, afirmou o secretário de Saúde, Maurício Godinho.





