A Venezuela voltou ao centro do noticiário internacional no início de 2026 em meio à crise política e às declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a relevância estratégica do petróleo venezuelano. O país sul-americano afirma possuir cerca de 300 bilhões de barris de reservas comprovadas, número que representa quase um quinto de todo o petróleo do mundo e o coloca no topo do ranking global.
Especialistas, no entanto, fazem ressalvas. Embora não haja dúvidas de que a Venezuela detém volumes gigantescos de petróleo bruto, parte dessas reservas é alvo de questionamentos técnicos, principalmente porque grande parcela do petróleo é pesado ou extrapesado, o que torna sua extração mais complexa, cara e dependente de tecnologia avançada.
O conceito de “reserva comprovada” vai além da simples existência do petróleo no subsolo. Ele considera a possibilidade real de extração econômica e técnica, com probabilidade mínima de 90%. No caso venezuelano, sobretudo na Faixa Petrolífera do Orinoco, a diferença entre o potencial geológico e a produção efetiva é significativa.
Ainda assim, a Venezuela é reconhecida como uma potência petrolífera. A explicação está em uma combinação pouco comum de fatores naturais. A posição geográfica do país, a interação entre placas tectônicas, a presença de extensas bacias sedimentares e a evolução do relevo ao longo de milhões de anos criaram condições excepcionais para a geração e o acúmulo de hidrocarbonetos.
Do ponto de vista geológico, o território venezuelano é dividido em duas grandes áreas separadas pela Cordilheira dos Andes, que atravessa o oeste do país. Essa cadeia montanhosa, combinada com vastas regiões de planícies e bacias profundas, foi fundamental para a formação dos principais campos petrolíferos, como os do Lago de Maracaibo e, principalmente, da Faixa do Orinoco, considerada a maior concentração contínua de hidrocarbonetos do mundo.
A Venezuela está localizada em uma zona de intensa interação entre as placas tectônicas Sul-Americana, do Caribe e de Nazca. Esse choque de placas gerou dobramentos, falhas geológicas e bacias profundas capazes de armazenar grandes volumes de petróleo. Ao longo do tempo, o material orgânico acumulado em ambientes aquáticos foi soterrado, submetido a altas pressões e transformado em petróleo.
Esse processo também explica as características do petróleo venezuelano, que se tornou mais pesado, ácido e com alto teor de enxofre, dificultando o refino. Ainda assim, esse tipo de petróleo é valioso para a produção de diesel e combustível de aviação, atendendo a demandas específicas do mercado global.
A exploração petrolífera no país teve início no começo do século 20 e, por décadas, foi conduzida por grandes companhias internacionais. Até meados da década de 1970, empresas como Shell, Exxon, Chevron e Texaco lideravam a produção. As primeiras grandes descobertas ocorreram na região do Lago de Maracaibo, ainda nos anos 1910, consolidando a Venezuela como um dos maiores produtores mundiais à época.
Ao longo de mais de um século de exploração convencional, foram identificados cerca de 75 bilhões de barris de reservas recuperáveis distribuídas em centenas de campos petrolíferos. Esses volumes, no entanto, são apenas uma fração do potencial total acumulado ao longo de centenas de milhões de anos, impulsionado por rochas geradoras de alta qualidade e estruturas geológicas eficientes para a migração e retenção do petróleo.
Em termos simples, a Faixa Petrolífera do Orinoco funciona como um grande ponto de convergência de hidrocarbonetos gerados em profundidade, resultado de uma história geológica singular. Essa combinação rara explica por que a Venezuela ocupa uma posição tão destacada no mapa energético global, mesmo enfrentando desafios econômicos, tecnológicos e políticos para transformar seu potencial em produção efetiva.





