Medicamentos como Ozempic e Mounjaro passaram a integrar a nova frente de vendas farmacêuticas do Mercado Livre, que começou a operar em pequena escala na cidade de São Paulo neste ano. A entrada da plataforma nesse mercado, porém, não transforma as chamadas canetas emagrecedoras em produtos comuns de comércio eletrônico.
O Mercado Livre iniciou a venda de medicamentos após adquirir a Farmácia Cuidamos e pretende ampliar o modelo com a inclusão de farmácias parceiras. A empresa também anunciou planos de entregas rápidas e expansão da operação farmacêutica.
É justamente nessa expansão que surge a principal questão regulatória: o que um marketplace pode fazer e quais regras continuam obrigatórias?
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, já deixou claro que mudanças recentes na legislação abriram espaço para a participação de plataformas digitais na logística e entrega de medicamentos, mas isso não significa autorização automática para vender remédios sem cumprir as regras sanitárias.
Mercado Livre entrou no setor farmacêutico
A operação do Mercado Livre começou em São Paulo em março de 2026, inicialmente em uma área limitada da capital.
Segundo informações divulgadas pela empresa, a estratégia é deixar de trabalhar apenas com sua farmácia própria e permitir também a entrada de farmácias terceirizadas na plataforma.
O objetivo anunciado é chegar a cerca de 20 unidades participantes até o fim do ano e acelerar a expansão em 2027.
A mudança coloca o Mercado Livre em um setor que possui regras muito diferentes das aplicadas à venda de eletrônicos, roupas ou produtos para casa.
Medicamentos são produtos sujeitos à vigilância sanitária, e sua venda, armazenamento, dispensação e transporte dependem de uma série de requisitos.
Marketplace não tem autorização automática para vender medicamentos
Em agosto, a Anvisa revogou medidas preventivas que atingiam plataformas como Mercado Livre, iFood, Rappi, Americanas, Submarino e Shopee.
A agência, entretanto, fez uma ressalva importante: a revogação dessas medidas não equivale a uma autorização automática para comercializar medicamentos.
A nova legislação permite que farmácias e drogarias utilizem plataformas digitais para atividades de logística e entrega ao consumidor, desde que sejam cumpridas integralmente as exigências sanitárias.
A regulamentação específica desse modelo ainda está em construção.
Ozempic e Mounjaro exigem receita retida
Para as chamadas canetas emagrecedoras, o controle é ainda mais rigoroso.
Medicamentos agonistas de GLP 1, grupo que inclui Ozempic, Mounjaro, Wegovy e outros produtos, só podem ser vendidos mediante prescrição em duas vias e retenção da receita pela farmácia ou drogaria.
A receita tem validade de até 90 dias.
A regra também vale para outros medicamentos com princípios ativos como semaglutida, tirzepatida, liraglutida, dulaglutida, exenatida e lixisenatida.
Isso significa que uma compra iniciada pela internet não elimina o controle previsto para a venda presencial.
O consumidor não pode simplesmente adicionar Ozempic ou Mounjaro ao carrinho e concluir a compra como faria com um produto de venda livre.
O que pode
Dentro das regras atualmente estabelecidas, uma plataforma digital pode atuar como parte do processo tecnológico e logístico relacionado à venda de medicamentos por farmácias regularizadas.
A legislação permite que farmácias e drogarias utilizem plataformas de comércio eletrônico para logística e entrega, desde que sejam cumpridas integralmente as exigências sanitárias.
Também é possível realizar pedidos remotamente quando a dispensação está vinculada a estabelecimento autorizado e são respeitadas as regras específicas de cada medicamento.
No caso de produtos sujeitos à prescrição, a receita continua sendo obrigatória.
O que não pode
A plataforma não pode funcionar como se qualquer vendedor pudesse anunciar medicamentos livremente.
Também não é permitido que uma empresa sem regularização como farmácia ou drogaria comercialize medicamentos por conta própria.
Medicamentos sem registro sanitário no Brasil também não podem ser vendidos regularmente.
A Anvisa já proibiu produtos apresentados como canetas emagrecedoras por falta de registro no país e também intensificou a fiscalização de plataformas e estabelecimentos que atuam nesse mercado.
Receita não pode ser ignorada por causa da compra online
Outro ponto importante é que a internet não altera a classificação sanitária do medicamento.
Se o produto exige receita na farmácia física, continuará exigindo receita na operação digital.
No caso de Ozempic e Mounjaro, além da apresentação da prescrição, a farmácia precisa reter uma das vias.
A exigência foi reforçada diante da preocupação com o uso indiscriminado desses medicamentos, especialmente fora das indicações aprovadas e sem acompanhamento adequado.
Anvisa acompanha de perto a expansão das canetas
A popularização dos medicamentos à base de GLP 1 levou a Anvisa a reforçar a fiscalização.
Em 2026, a agência anunciou novas medidas contra irregularidades na importação, manipulação e comercialização dessas substâncias, incluindo fiscalização de estabelecimentos e revisão de regras do setor.
A Anvisa também mantém alertas sobre riscos associados ao uso inadequado desses medicamentos.
Entre os eventos adversos monitorados está a pancreatite aguda. A agência ressalta que a relação entre benefícios e riscos permanece favorável quando os medicamentos são utilizados conforme as indicações aprovadas, mas reforça a necessidade de prescrição e acompanhamento profissional.
Nem toda “caneta para emagrecer” anunciada na internet é regular
Esse é um dos principais cuidados para o consumidor.
O crescimento da procura por Ozempic, Mounjaro e outros medicamentos semelhantes também favoreceu a circulação de produtos irregulares, falsificados ou apresentados como alternativas às marcas conhecidas.
Por isso, encontrar um produto em uma plataforma conhecida não substitui a necessidade de verificar sua origem e a regularidade da farmácia responsável pela venda.
O consumidor deve desconfiar especialmente de ofertas de canetas sem exigência de receita ou de produtos que não tenham registro sanitário no Brasil.
Transporte também precisa obedecer a regras
Outro ponto pouco percebido pelo consumidor é a entrega.
Medicamentos precisam ser transportados em condições que mantenham sua qualidade até chegar ao paciente.
Isso ganha importância especial no caso de produtos injetáveis que possuem exigências específicas de armazenamento e temperatura.
A participação de serviços de entrega rápida não elimina a responsabilidade sanitária sobre o medicamento.
E qual é a situação do Mercado Livre hoje?
O Mercado Livre já possui uma operação farmacêutica própria em São Paulo e anunciou que pretende incorporar farmácias parceiras ao seu marketplace.
Ao mesmo tempo, a Anvisa abriu um processo regulatório específico para definir as condições de participação de plataformas de comércio eletrônico na logística e entrega de medicamentos.
A própria agência reforçou que a nova legislação não deve ser interpretada como uma liberação irrestrita para marketplaces.
O que observar antes de comprar
Para o consumidor, o ponto principal é identificar qual farmácia está efetivamente dispensando o medicamento.
Também é importante verificar se o produto possui registro na Anvisa, se há exigência de receita, se a prescrição está sendo solicitada corretamente e se as condições de armazenamento e entrega são compatíveis com as orientações do fabricante.
No caso das canetas de GLP 1, ofertas sem exigência de receita devem ser vistas com atenção redobrada.
A facilidade de comprar pela internet não muda uma regra básica: Ozempic, Mounjaro e medicamentos semelhantes continuam sendo tratamentos sujeitos a controle sanitário e acompanhamento profissional.





