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Transformação do agro brasileiro pode exigir até US$ 511 bilhões até 2050

Estudo estima investimentos para recuperar pastagens, ampliar práticas sustentáveis e preparar produção e infraestrutura para mudanças climáticas
Por: Redação
2 de setembro de 2026 - 12:44 PM

A transformação da produção de alimentos no Brasil para um modelo com menor impacto ambiental e maior capacidade de enfrentar as mudanças climáticas pode exigir investimentos acumulados entre US$ 268 bilhões e US$ 511 bilhões até 2050.

A estimativa faz parte do relatório Cenários e Custos da Transição Ecológica no Brasil, elaborado pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e pelo ClimaInfo.

Na prática, o estudo calcula quanto seria necessário investir nas próximas décadas para produzir alimentos com maior eficiência, recuperar áreas degradadas, reduzir emissões de gases de efeito estufa e melhorar a infraestrutura utilizada pelo setor.

Entre as ações consideradas estão recuperação de pastagens, sistemas que combinam agricultura, pecuária e floresta, crédito rural voltado a práticas sustentáveis, armazenagem, rastreabilidade da produção, bioeconomia e assistência técnica.

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O que significa transformar o agro?
O estudo não propõe acabar com a produção agrícola em larga escala nem com as exportações brasileiras.

A ideia é manter a importância econômica do setor, mas modificar gradualmente algumas formas de produzir e utilizar a terra.

Um dos caminhos é aumentar a produtividade das áreas que já são utilizadas pela agropecuária, reduzindo a necessidade de abertura de novas áreas.

Também entram nessa estratégia a recuperação de terras degradadas, adoção de sistemas integrados de produção, utilização de bioinsumos, restauração ambiental e investimentos em estruturas mais preparadas para eventos climáticos extremos.

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Crédito rural verde está entre os maiores investimentos
Uma das maiores parcelas previstas pelo levantamento está no chamado crédito rural verde, destinado a financiar práticas produtivas consideradas mais sustentáveis.

O relatório estima necessidade de US$ 63 bilhões a US$ 126 bilhões até 2050 nessa área.

Outra frente de peso envolve sistemas agroflorestais e restauração, com investimentos calculados entre US$ 40 bilhões e US$ 80 bilhões.

Para infraestrutura mais resistente às mudanças climáticas, incluindo armazenagem e adaptação logística, a estimativa varia de US$ 40 bilhões a US$ 70 bilhões.

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A recuperação de pastagens degradadas demandaria entre US$ 20 bilhões e US$ 45 bilhões, enquanto sistemas de integração e intensificação sustentável poderiam exigir de US$ 30 bilhões a US$ 60 bilhões.

Por que recuperar pastagens é importante?
A utilização da terra aparece como uma das questões centrais do relatório.

Segundo os dados apresentados no estudo, o Brasil possui aproximadamente 350 milhões de hectares destinados à agropecuária. Desse total, entre 150 milhões e 170 milhões de hectares seriam ocupados por pastagens.

Entre 50 milhões e 70 milhões de hectares de pastagens estariam degradados, conforme dados da Embrapa citados pelos pesquisadores.

Recuperar essas áreas poderia aumentar a produtividade da pecuária e permitir que parte do crescimento da produção aconteça em terras que já foram abertas, diminuindo a pressão pela expansão sobre novas áreas.

Estudo também calcula custos do atual sistema de alimentos
Além de estimar os investimentos necessários para a transformação, os pesquisadores fizeram outro cálculo: quanto o atual sistema agroalimentar brasileiro representa em custos para a economia e para a sociedade.

Segundo o levantamento, esse chamado “custo sistêmico” ficaria entre US$ 410 bilhões e US$ 526 bilhões por ano.

Esse número, porém, precisa ser interpretado com cuidado.

Não significa que o agronegócio brasileiro esteja perdendo até US$ 526 bilhões por ano, nem que produtores tenham de pagar diretamente esse valor.

O cálculo reúne despesas existentes na cadeia produtiva e valores estimados pelos pesquisadores para impactos ambientais, climáticos, sanitários e nutricionais.

Também não se trata de uma estatística oficial sobre o custo do agronegócio brasileiro, mas de uma estimativa construída pelos autores do estudo.

O que entra nessa conta?
Os pesquisadores dividem o cálculo em dois grandes grupos.

O primeiro envolve custos operacionais diretos, estimados entre US$ 162 bilhões e US$ 233 bilhões por ano.

A maior parcela está relacionada a energia, combustíveis e logística, com valores entre US$ 105 bilhões e US$ 154 bilhões.

Também entram fertilizantes e outros insumos, perdas depois da colheita e desperdício, além de crédito rural, seguros e outros gastos relacionados ao financiamento da produção.

O segundo grupo é chamado pelo estudo de custos ocultos sistêmicos, estimados entre US$ 248 bilhões e US$ 293 bilhões anuais.

Nesse cálculo aparecem valores atribuídos a fatores como emissões de gases de efeito estufa, mudanças no uso da terra, degradação ambiental, perda de biodiversidade, vulnerabilidade às mudanças climáticas e consequências sanitárias e nutricionais associadas ao sistema alimentar.

Quanto seria necessário investir até 2050?
Segundo as estimativas apresentadas no relatório, os investimentos estão distribuídos em diferentes áreas:

Recuperação de pastagens degradadas
US$ 20 a 45 bilhões

Integração e intensificação sustentável
US$ 30 a 60 bilhões

Agroflorestas e restauração
US$ 40 a 80 bilhões

Assistência técnica e rastreabilidade
US$ 5 a 15 bilhões

Crédito rural verde
US$ 63 a 126 bilhões

Infraestrutura resiliente
US$ 40 a 70 bilhões

Bioeconomia e agregação de valor
US$ 30 a 60 bilhões

Mudanças nos padrões alimentares
US$ 40 a 55 bilhões

As cifras representam cenários estimados pelos pesquisadores, e não recursos que já tenham sido aprovados ou que necessariamente serão gastos pelo governo ou pelo setor privado.

Tema tem importância para Piracicaba
A discussão tem relação direta com Piracicaba por causa da presença do agronegócio, da pesquisa científica e da formação de profissionais ligados ao setor no município.

A cidade abriga a Esalq USP, referência em ciências agrárias, e está inserida em uma região com produção agrícola, indústria ligada ao agro e atividades de pesquisa e inovação.

Questões como recuperação do solo, aumento de produtividade, adaptação ao clima, bioeconomia e uso mais eficiente da terra tendem, portanto, a fazer parte também dos desafios enfrentados pelo setor na região.

O relatório do Cebrap e do ClimaInfo aponta que a transformação exigiria investimentos de longo prazo e participação tanto do setor público quanto do privado. O desafio apresentado é conciliar a manutenção da capacidade brasileira de produzir e exportar alimentos com práticas capazes de reduzir impactos ambientais e aumentar a resistência da produção às mudanças do clima.