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Aquecimento global obriga uso de neve artificial em 80% das provas dos Jogos de Inverno

Escassez de neve natural leva organização de Milão-Cortina 2026 a produzir milhões de metros cúbicos de material sintético, com alto custo ambiental
Por Redação
3 de fevereiro de 2026 - 1:34 PM

As mudanças climáticas já alteram de forma significativa a realização dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026. Com a redução contínua da neve natural nos Alpes italianos, cerca de 80% da neve utilizada nas competições será artificial, produzida por máquinas específicas para garantir a realização das provas.

Um levantamento feito por pesquisadores europeus aponta que a região dos Alpes perdeu cerca de 34% da neve acumulada ao longo dos últimos 100 anos. O cenário torna inviável a realização dos Jogos de Inverno apenas com neve natural, realidade que contrasta com edições passadas, como a de Cortina d’Ampezzo em 1956, quando todas as provas ocorreram sem o uso de material artificial.

Para a edição de 2026, a organização estima a produção de 2,5 milhões de metros cúbicos de neve artificial, principalmente nas sedes de Bormio, onde ocorrerão as provas de esqui alpino, e Livigno, palco do esqui freestyle e do snowboard. O processo demanda cerca de 946 milhões de litros de água, volume equivalente a aproximadamente 380 piscinas olímpicas, o que levanta preocupações ambientais.

Especialistas explicam que o aumento das temperaturas dificulta não apenas a formação da neve natural, mas também a própria produção da neve artificial. “Quando a temperatura sobe, a precipitação ocorre em forma de chuva, não de neve. Além disso, eventos extremos, como secas, reduzem ainda mais a disponibilidade de água”, afirma o meteorologista Carlos Nobre.

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Atletas também percebem os efeitos do aquecimento global. O snowboarder Pat Burgener, que representa o Brasil, relata que a diminuição da neve nas montanhas é visível ano após ano. Segundo ele, a prática esportiva ainda é possível graças às máquinas de neve, mas o cenário natural se torna cada vez mais restrito.

A escassez de neve impacta também o calendário esportivo, encurtando a temporada de competições. Com o derretimento mais rápido, pistas se tornam lentas, rampas ficam instáveis e provas acabam sendo canceladas. A ex-atleta Jaqueline Mourão, que disputou cinco edições dos Jogos de Inverno, afirma que cancelamentos por falta de neve se tornaram frequentes no esqui cross-country.

Nem mesmo as modalidades disputadas em pistas de gelo escapam dos efeitos do aquecimento. No bobsled, por exemplo, o calor excessivo pode comprometer a qualidade da pista e até invalidar descidas, como ocorreu em competições recentes.

Diante desse cenário, o Comitê Olímpico Internacional (COI) afirma que tem adotado padrões de sustentabilidade e metas de redução de impacto ambiental para tentar preservar o futuro dos esportes de inverno, cada vez mais ameaçados pelas mudanças climáticas.

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