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Conselho de Paz idealizado por Trump gera críticas e levanta temor de enfraquecimento da ONU

Proposta para supervisionar reconstrução de Gaza prevê presidência indefinida do presidente dos EUA e cobrança de US$ 1 bilhão por vaga permanente
Por Redação
22 de janeiro de 2026 - 3:38 PM

A proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de criar um Conselho de Paz para atuar em conflitos internacionais, com foco inicial na reconstrução da Faixa de Gaza, tem provocado preocupação entre diplomatas e líderes globais, sobretudo pelo risco de o novo órgão se sobrepor ao papel histórico das Nações Unidas (ONU).

A polêmica ganhou força após Trump afirmar que o Conselho de Paz “poderia” substituir a ONU, organização criada há 80 anos para a manutenção da paz global. A declaração reforçou receios de que o conselho funcione como uma alternativa política e diplomática liderada diretamente pela Casa Branca.

De acordo com uma minuta da carta constitutiva obtida pela CNN, Trump ocuparia a presidência do Conselho de forma indefinida, podendo permanecer no cargo mesmo após o fim de seu segundo mandato. A substituição só ocorreria em caso de renúncia voluntária ou incapacidade, mediante votação unânime do Conselho Executivo. Um futuro presidente dos EUA poderia designar outro representante norte-americano, além de Trump.

A Casa Branca anunciou na sexta-feira (16) a criação de um Conselho Executivo fundador, que inclui nomes próximos ao presidente, como o genro Jared Kushner, o secretário de Estado Marco Rubio, o enviado especial Steve Witkoff e o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.

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Convites foram enviados a cerca de 50 países, e a expectativa do governo norte-americano é reunir aproximadamente 35 deles em uma cerimônia de assinatura prevista para esta quinta-feira (22), durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. A adesão, no entanto, ainda é incerta. Países como Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Bahrein confirmaram participação, enquanto outros, como França e Noruega, recusaram o convite.

A Rússia, a China e a Bielorrússia também foram convidadas, o que gerou críticas adicionais. Trump afirmou que o presidente russo, Vladimir Putin, aceitou o convite, embora Moscou tenha informado que ainda estuda os documentos e consultará aliados estratégicos. Putin chegou a mencionar a possibilidade de utilizar ativos russos congelados nos EUA para pagar a taxa exigida para uma vaga permanente.

Israel também confirmou adesão ao conselho, apesar de críticas à presença de representantes da Turquia e do Catar no núcleo executivo responsável pela implementação do plano de cessar-fogo em Gaza.

Outro ponto sensível é o custo para garantir uma vaga permanente no Conselho de Paz: uma contribuição de US$ 1 bilhão. Segundo o governo americano, o valor não seria uma taxa obrigatória, mas um aporte destinado à reconstrução de Gaza, permitindo maior poder de supervisão aos países contribuintes. Ainda assim, diplomatas avaliam que o montante restringe a participação e levanta questionamentos sobre legitimidade e governança.

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Autoridades da ONU reagiram com cautela. O porta-voz adjunto Farhan Haq afirmou que a organização continuará atuando pela paz e lembrou que outras iniciativas já coexistiram com a ONU ao longo de sua história. No entanto, ressaltou que a resolução aprovada pelo Conselho de Segurança no ano passado limitava o plano à Faixa de Gaza, enquanto o novo Conselho de Paz teria um mandato mais amplo.

Especialistas em política internacional também demonstram ceticismo. Para o ex-negociador americano Aaron David Miller, a proposta ignora a complexidade dos conflitos reais e dificilmente conseguiria substituir a estrutura consolidada da ONU. Já o ex-vice-embaixador dos EUA na ONU, Robert Wood, alertou que qualquer tentativa de enfraquecer a organização internacional enfrentaria forte resistência da maioria dos Estados-membros.

Apesar das críticas, países que não receberam convite inicial demonstraram interesse em participar, inclusive avaliando a possibilidade de pagar o alto valor exigido. O futuro do Conselho de Paz, no entanto, deve depender diretamente de sua atuação prática em Gaza e da capacidade de coexistir, ou não, com o sistema internacional já estabelecido.

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