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Por que escolas cívico-militares atraem mais de 11 mil alunos em lista de espera no Paraná

Busca por disciplina, segurança e melhor ambiente escolar impulsiona expansão do modelo, que já soma mais de 300 unidades no estado e divide opiniões
Por Redação
15 de janeiro de 2026 - 1:58 PM

A procura por escolas cívico-militares no Paraná atingiu um patamar inédito: mais de 11 mil estudantes aguardavam vaga nesse modelo de ensino em novembro de 2025, segundo dados obtidos via Lei de Acesso à Informação. A alta demanda reflete, sobretudo, o interesse de famílias por maior disciplina, organização e sensação de segurança dentro das escolas, em meio a críticas sobre desigualdade de recursos, impacto pedagógico e judicialização do programa.

O modelo, adotado pelo governo paranaense desde 2021, mantém a gestão pedagógica sob responsabilidade civil, mas incorpora militares da reserva em funções administrativas e de acompanhamento disciplinar. Atualmente, mais de 300 escolas funcionam nesse formato, e outras 33 devem aderir em 2026, o que representa cerca de 20% da rede estadual.

Para pais como Rafaela Barbosa, moradora de Wenceslau Braz, no norte do estado, a mudança para uma escola cívico-militar trouxe resultados concretos. Insatisfeita com o desempenho do filho adolescente em um colégio particular após a pandemia, ela decidiu apostar no novo modelo. Dois anos depois, relata melhora no rendimento escolar e no comportamento cotidiano.

“Ele ficou mais responsável e organizado. Foi melhor do que eu esperava”, afirma.

A experiência relatada por Rafaela se repete em diferentes regiões do estado. Diretores de escolas cívico-militares apontam que a expectativa dos pais é por uma formação mais rigorosa, com regras claras de convivência, respeito ao patrimônio público e valorização de deveres e responsabilidades. Em algumas unidades, a demanda supera a capacidade física, o que obriga a adoção de critérios como proximidade da residência.

As escolas seguem regras padronizadas de apresentação pessoal, como corte de cabelo e uso de uniformes, além de um sistema de pontuação por comportamento. Alunos começam o ano com uma pontuação-base, que pode aumentar ou diminuir conforme atitudes positivas ou negativas, como colaboração, respeito às normas ou descumprimento de regras. O desempenho comportamental pode render elogios, certificados e medalhas.

O secretário estadual da Educação, Roni Miranda Vieira, avalia que o modelo atende a uma demanda social crescente. Segundo ele, muitas famílias têm dificuldade de acompanhar de perto a rotina dos filhos e buscam na escola um apoio maior na formação disciplinar.

“Os pais procuram alguém que consiga fazer essa parte da disciplina, que muitas vezes eles não conseguem garantir no dia a dia”, afirma.

O programa também se tornou uma das principais bandeiras políticas do governador Ratinho Junior (PSD), que frequentemente divulga os colégios cívico-militares nas redes sociais. A iniciativa despertou interesse de outros estados, como São Paulo, que estuda implantar o modelo em até 100 escolas a partir de 2026.

Apesar da popularidade, o modelo enfrenta forte oposição de entidades representativas dos professores. A APP-Sindicato critica o que considera priorização de recursos para essas escolas, interferência no processo pedagógico e imposição de padrões comportamentais que podem afetar a diversidade e a saúde emocional dos estudantes. A entidade também relata denúncias de conflitos entre militares e professores e de pressão sobre alunos que não se adaptam ao sistema.

A legalidade do programa é alvo de questionamento no Supremo Tribunal Federal (STF), em ações movidas pelo PT e pelo PSOL, que alegam militarização precoce do ambiente escolar. Em parecer enviado ao fim de 2025, a Procuradoria-Geral da República considerou o modelo constitucional, mas o caso ainda aguarda julgamento.

Especialistas em educação apontam que ainda há poucas pesquisas conclusivas sobre o impacto do modelo no desempenho acadêmico. Estudos realizados em Goiás, onde escolas semelhantes existem há mais tempo, indicam melhora em indicadores educacionais, mas alertam para possíveis vieses de seleção, como a atração de alunos com melhor desempenho inicial.

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Para pesquisadores e organizações da área educacional, o modelo pode gerar resultados positivos em determinados contextos, mas não deve ser tratado como solução única.

“Não é uma fórmula mágica. Pode funcionar, mas precisa ser bem planejado, avaliado e comparado com outras políticas públicas”, avaliam.

Enquanto o debate segue entre resultados práticos, disputas ideológicas e questionamentos jurídicos, a fila de espera no Paraná indica que, para milhares de famílias, a promessa de disciplina e organização continua sendo um forte atrativo.